Divórcio quase dobra em dez anos e impulsiona novas famílias, diz IBGE

Maior aceitação social, menos burocracia e mais mulheres trabalhando explicam alta das separações

‘Juntar os meus, os seus e os nossos não é fácil’, diz terapeuta sobre as famílias com filhos de outros relacionamentos

O empresário Luiz Campriglia, 40, vive em casa com uma menina de um ano e um menino de oito. Ela é filha do seu relacionamento com a produtora Aline Prado, 29, com quem se casou há três anos; já o garoto é filho do primeiro casamento dela.

Segundo o Censo 2010, que investigou pela primeira vez o tema, quase um sexto (16,2%) dos lares habitados por casais com filhos contam com a presença de filhos de relacionamentos anteriores.

Para a pesquisadora Ana Lúcia Saboia, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), isso se deve ao aumento do rompimento de relações conjugais no país.

Quando essas pessoas já têm filhos e se unem a novos parceiros, dão forma ao que os especialistas chamam de “famílias reconstituídas”.

“É cada vez mais comum que os casamentos hoje venham com um pacote”, diz Ceneide Cerveny, professora de psicologia da PUC-SP.

Para ela, isso originou a figura dos “coirmãos” -que, diferentemente dos meios-irmãos, não têm laços sanguíneos, mas são criados juntos.

“Primeiro tem que ter uma fase de adaptação, que chamo de fase de conquista, quando o Luiz conquistou o Liam”, afirma Aline Prado, sobre o filho que levou para o relacionamento com Campriglia -depois, eles tiveram Mia, 1.

“Também ajuda a manter uma amizade com o ex, que é o meu caso. Ele hoje tem uma namorada que até busca o Liam na escola”, diz.

A terapeuta familiar Cristiana Pereira diz que atende cada vez mais famílias nessa situação, que é complexa. “Mas, com afeto e muita conversa, é possível resolver.”

A diretora de arte Ana Notte, 35, também passou pela experiência. Ela já morou com os dois filhos do casamento anterior do marido -Nicolau, 17, e Antonio, 13.

“Hoje, eles moram com a mãe, mas a convivência foi boa”, diz a mãe de Julia, 5.

“O que mais complica é a diferença de idade. Mas com o tempo vira uma família só e hoje ficamos com eles semana sim, outra não”, diz o marido, Michel Spitale, 51.

“Juntar os meus, os seus e os nossos não é fácil”, diz a psicanalista e terapeuta familiar Flavia Stockler. Ela diz que um filho é para sempre. “Depois de ter um filho, nunca mais há separação total do casal. O que tem que acontecer é uma reorganização do novo sistema familiar.”

TENDÊNCIA

Para Saboia, do IBGE, a tendência é que situações como essas sejam mais comuns. Em 2010, a parcela de divorciados chegou a 3,1%, quase o dobro dos 1,7% de 2000.

O aumento das separações tem diferentes explicações, como a maior aceitação social do divórcio e a simplificação dos trâmites legais.

Além disso, há a maior inserção da mulher no mercado de trabalho, que deu a ela autonomia financeira para se livrar de relacionamentos.

O retrato mostra ainda que cresce a parcela de casais sem filhos -um quinto do total.

Fonte: Folha de São Paulo